Uma imprensa livre não é o ‘inimigo do povo’

Janeiro 14, 2019 • Liberdade de imprensa, Média e política, Últimas • by

Os jornalistas não são 'o inimigo'

Uma imprensa livre não é o ‘inimigo do povo’ – e essa é precisamente a razão porque ela está a ser atacada por políticos em várias partes do mundo.

 

No dia 16 de Agosto de 2018, cerca de 350 jornais norte-americanos publicaram, de forma coordenada, editoriais em resposta aos repetidos ataques do presidente Donald Trump a uma imprensa livre.

Para um homem que colaborou tão ativamente com os média, que trabalhou na indústria do espetáculo e que tanto beneficiou da publicidade gratuita que isso lhe proporcionou quando lançou a sua carreira política, Trump revela uma enorme antipatia para com os média, considerando aqueles que têm a coragem de publicar algo que lhe desagrade como ‘os inimigos do povo americano’, e afirmando repetidamente que meios de comunicação social como a ABC, a CNN ou o New York Times publicam ‘notícias falsas‘.

Uma imprensa livre dá poder aos cidadãos – e é por isso que os poderosos a atacam

Mas Trump não está sozinho. Há muitos poderosos por esse mundo fora que, claramente, não estão confortáveis com a ideia de que existem instituições independentes cuja função é fiscalizar a sua ação. Da Itália à Índia, da Polónia às Filipinas, do Equador à África do Sul, este estilo de poderosos tem desde sempre tentado domesticar as notícias através de ataques públicos, pressões políticas e acordos comerciais obscuros. Estes incluem normalmente pressão sobre os proprietários e o uso estratégico da publicidade governamental, pondo em causa um dos pilares do governo popular: o acesso das pessoas a fontes de informação independentes.

Estes políticos sabem que uma imprensa livre é fundamental para dar poder aos cidadãos, informando-os acerca dos assuntos públicos. Uma imprensa livre é capaz de desmontar os modos favoráveis como os políticos e as autoridades oficiais se procuram apresentar ao público e dar visibilidade a questões ou factos que lhes são inconvenientes. É por isso que os políticos têm medo dos média e é por isso que os atacam.

É precisamente porque uma imprensa livre não é ‘o inimigo do povo’ que ela está sob a mira dos políticos que certamente prefeririam a adulação ao escrutínio público. Muitos destes políticos não são os velhos autocratas do antigamente, tentando controlar as notícias através da censura e da violência. A maior parte deles surgem em sociedades que, no todo ou em parte, se organizam segundo os princípios e as práticas da democracia liberal. Alguns deles usam meios diretos para tentar controlar os media, mas, ainda mais importante, põem em causa a própria base do poder dos média – a sua ligação com o público. Se um político conseguir convencer as pessoas que a imprensa livre é um ‘inimigo’, que as notícias são ‘falsas’ e que não se pode confiar em ninguém a não ser no próprio político, então esse político terá pouco a temer em relação aos média.

Confrontar os políticos poderosos que atacam a imprensa livre é um bom princípio. Mas a questão que realmente importa é perceber de que modo os jornalistas e os média podem conquistar e manter a confiança das pessoas.

Como é que os média podem ripostar

Defender os princípios do jornalismo, tal como os jornais americanos fizeram recentemente, de uma forma que teve impacto muito para além dos Estados Unidos, é um primeiro passo para ripostar às ameaças descritas acima. Mas fazer a defesa desses princípio na prática do dia a dia é ainda mais importante. Como disse recentemente Marty Baron, diretor do Washington Post, os jornalistas não estão ’em guerra’ com a administração norte-americana, estão apenas ‘a trabalhar’. Desafiar a retórica beligerante de Trump não é uma ação política contrária à administração, mas apenas um lembrete de que a função do jornalismo é justamente escrutinar os poderosos e que os poderosos – pertençam eles ao setor público ou privado e sejam eles eleitos ou não – geralmente não gostam de ser escrutinados. Em tempos o Partido Republicano defendia solidamente esta ideia: ‘A liberdade de imprensa’, dizia o Presidente Reagan, ‘é um princípio fundamental da vida americana’; e uma imprensa livre, afirmou o Presidente Bush, ‘é indispensável à democracia’.

Para conseguirem escrutinar efetivamente os vários poderes, os jornalistas e os meios de comunicação social têm que defender os seus princípios, exercê-los na prática do dia a dia e convencer o público que estão de facto apenas a fazer o seu trabalho (e não a atacar individualmente determinados agentes políticos de uma forma injusta). Para resistirem aos ataques dos políticos que os querem conotar como ‘inimigos do povo’, os jornalistas e o jornalismo precisam de convencer as pessoas de que estão a prestar um serviço público e não a defender certos projetos políticos, a favorecer interesses particulares ou a servir determinados segmentos da sociedade.

Trump não é caso único. Muitos políticos poderosos de diversos países do mundo revelam desconforto com a ideia de que existem instituições independentes cuja função é escrutiná-los

Aqui, o jornalismo norte-americano, confrontado com Trump, está numa situação de equilíbrio precário – tal como acontece em muitos outros países do mundo. Quando os políticos com poder tentam polarizar as questões e forçar as pessoas a tomarem partido, em quem é que elas vão confiar: numa imprensa livre ou nos seus partidários políticos?

Nos EUA, uma sondagem Reuters-Ipsos realizada no ano passado concluiu que a confiança na imprensa aumentou significativamente depois de o Presidente ter começado a apelidar os média como ‘inimigos do povo’, ao mesmo tempo que a confiança em Trump decresceu ligeiramente. Mas, mesmo então, os níveis de confiança na imprensa e no presidente estavam interligados e, embora muitos meios de comunicação social conquistem a confiança dos seus utilizadores, os média, enquanto instituição pública, continuam a enfrentar uma crise de confiança em vários pontos do mundo.

Para escrutinarem convenientemente o poder e os poderosos, os jornalistas e os meios de comunicação social têm que defender os seus princípios, pô-los em prática no dia a dia e convencer o público de que estão apenas a fazer o seu trabalho.

Um estudo publicado em Julho deste ano concluiu que apenas 34% dos norte-americanos sentem poder confiar na maior parte das notícias a maior parte das vezes e mostrou que as pessoas estão claramente a prestar atenção aos ataques do presidente Trump aos média. 48% afirmam estar preocupados com o uso do termo ‘fake news’ que é feito pelos políticos para desacreditarem os meios de comunicação de que não gostam. Mas a decisão ainda está em aberto no que concerne a saber onde o público vai acabar por depositar a sua confiança. No mesmo estudo, um número ainda maior de norte-americanos expressou a sua preocupação com as ‘notícias nas quais os factos são manipulados para servir uma agenda particular’ (67%) e com o ‘mau jornalismo’ (60%).

Confrontar os políticos que atacam os média é um princípio. Mas aquilo que realmente importa é perceber de que modo os jornalistas e os meios de comunicação social podem conquistar e manter a confiança das pessoas. Se a imprensa livre quiser ganhar esta guerra – que não pediu – e continuar a ser capaz de escrutinar o poder e os poderosos, só conseguirá fazê-lo com o público do seu lado.

Foto: @Wikipedia

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