Confiança geral nas notícias aumenta bem como importância dos meio regionais

Junho 23, 2021 • Investigação, Jornalismo, Jornalismo digital, Top stories • by

Num ano marcado pela pandemia, a confiança nas notícias, em geral, aumentou em vários países, em contraciclo dos anos anteriores, e Portugal não é exceção, com uma subida de 5 pp face a 2020, mantendo-se como um dos países onde mais se confia em notícias. A maioria dos portugueses considera que os jornalistas devem manter a sua imparcialidade em todas as situações (69,3%) e 41,2% considera que o Estado deve apoiar as marcas de notícias para a sua recuperação financeira. O confinamento parece ter motivado a necessidade de notícias de maior proximidade e, por isso, assistimos à valorização dos media regionais.

O Reuters Digital News Report Portugal 2021 (ReutersDNR_PT_2021) permite-nos compreender melhor o sentido das mudanças operadas no consumo de notícias, num ano marcado pela crise pandémica. Portugal destaca-se, no panorama internacional em aspetos como a confiança em notícias que continua a situar-se em níveis acima da média geral, mas este ano observando uma tendência de subida, ao contrário da tendência que tinha vindo a sentir nos anos anteriores.

Um dado a reter é aquele em que os portugueses mais afetados, em termos pessoais, pela Covid-19, revelam ser aqueles que possuem maiores níveis de confiança em conteúdos noticiosos.

Assistimos a uma tendência global no aumento do pagamento por notícias, no qual Portugal não foge à regra, embora com um longo caminho a percorrer.

A televisão continua a ser o principal meio de acesso a notícias, com 57,7% a afirmarem que este meio é a sua principal fonte de notícias. A Internet continua a ganhar relevância e é já a principal fonte de notícias para 17,4%. No entanto, nesta dimensão há diferenças quando temos em conta as diferentes faixas etárias.

O ano de 2021 marca a descida das duas redes sociais mais usadas em Portugal, Facebook e Youtube nos utilizadores e na utilização para consumo de notícias. No entanto, WhatsApp e Twitter ganham terreno sobretudo no diz respeito ao consumo de notícias.
Alguns destaques dos dados sobre Portugal

Confiança em notícias e desinformação
A confiança em notícias em geral aumentou em diversos países e Portugal não é exceção, com uma subida de 5 pp. face a 2020 (dos 56% para os 61%). Entre as possíveis justificações para este aumento, há a destacar o papel preponderante da comunicação social na ajuda à interpretação e compreensão da vida em pandemia. Os dados mostram que aqueles portugueses que, em termos pessoais, foram mais afetados pela Covid-19 também revelam maiores índices de confiança em conteúdos noticiosos. Igualmente, estão mais preocupados com a legitimidade de conteúdos online. Em termos gerais, mais de 7 em cada 10 portugueses dizem-se preocupados com este tipo de conteúdos e com os seus efeitos. Os portugueses afirmam que a Covid-19 é o tema sobre o qual mais encontraram conteúdos desinformativos.

Representação e diversidade nos media
Entre os aspetos que os portugueses consideram ser cobertos de forma mais insuficiente pelos media destacam-se a sua geografia / zona de residência e a classe social / económica a que pertencem – um terço dos inquiridos acham que a sua geografia é insuficiente coberta pelos media e um quarto dizem o mesmo sobre a sua classe social / económica. O género e a etnia são os aspetos que se considera mais serem tratados de forma suficiente. A maioria dos portugueses que utilizam a Internet considera que os media devem cobrir uma grande diversidade de pontos de vista (53,1%), devem manter a sua imparcialidade em todas as situações (69,3%) e dar igual tempo de exposição a todos os lados numa discussão (81,3%).

Preocupação com a situação da comunicação social
Quase 5 em cada 10 portugueses, que usam a Internet, dizem-se algo ou bastante preocupados com a situação financeira das marcas de notícias, sendo que 43,7% têm consciência de que essa situação é hoje mais frágil do que há 10 anos. Em termos gerais, 41,2% dos inquiridos consideram que o estado deve intervir no sentido de apoiar as marcas de notícias em situação de fragilidade, face a 34,7% que têm a opinião contrária.

Pagamento por notícias online
Entre 2020 e 2021 a proporção de portugueses utilizadores de Internet que pagou por notícias em formato digital no ano anterior subiu 6,8 pp. para os 16,9%. Dados fornecidos pela APCT relativos à Circulação Digital Paga tendem a confirmar este crescimento.
No entanto, dados qualitativos do inquérito indicam que alguns consumidores associam o “pagamento por notícias em formato digital”, por exemplo, com a oferta de subscrições de jornais apoiada por diferentes entidades no quadro da pandemia, bem como associar os serviços de conteúdos informativos televisivos pagos a este tipo de pagamentos. Por essa razão, e apesar de ambas as fontes indicarem tendências coincidentes, estes dados devem ser lidos com cautela e carecem de confirmação em 2022, em termos de evolução geral e grandeza. Por sua vez, 4 em cada 10 inquiridos que usam a Internet e não pagam por notícias online dizem ser improvável vir a alterar essa posição e fazê-lo no futuro.

Fontes e acesso a notícias
A televisão e a Internet (incluindo redes sociais) continuam a ser as fontes mais utilizadas pelos portugueses para acesso a notícias – cerca de três quartos dos inquiridos dizem ter usado estas fontes na semana anterior. A televisão é a principal fonte de notícias para 57,7%, a Internet (excluindo redes sociais) para 17,4% e as redes sociais, isoladamente, para 13,4%. A imprensa é a principal fonte de notícias para 7,3% e a rádio para 4,2%. No caso do acesso a notícias online, 8 em cada 10 pessoas responde realizar os acessos àquelas de forma indireta, através de motores de busca, de redes sociais, email, notificações móveis, agregadores ou outros, dado que consolida a importância e poder simbólico de terceiros no acesso a notícias.

Redes sociais, participação e partilha
Ainda que o Facebook e Youtube continuem a ser as redes sociais mais utilizadas pelos portugueses que usam a Internet (73,2% e 65,6%, respetivamente), ambas as redes registam perdas de utilizadores face a 2020 – o Facebook perde utilizadores na ordem dos 3,7 pp. e Youtube na ordem dos 2,4 pp. Em termos de utilização para consumo de notícias, as duas redes registam perdas na ordem dos 2,5 pp. e 3,9 pp., em 2021 face a 2020, sendo que 47,7% dos portugueses que usam a Internet usam o Facebook para aceder a notícias e 19,9% o Youtube. O Whatsapp e Twitter são as redes que registam maiores aumentos em termos de utilizadores no nosso país. O Instagram cresce também, mas em grandezas mais modestas. A partilha de notícias, nas redes sociais, é uma das práticas mais frequentes no que diz respeito ao consumo de informação online. Ainda que esses padrões comportamentais assumam, na maioria das vezes, uma forma benigna, podem também redundar em práticas com efeitos nocivos para o ecossistema noticioso, tais como a partilha “livre” de conteúdos pagos em apps de mensagens como Whatsapp, Telegram ou Signal.

Podcasting
Ao contrário de uma tendência internacional que mostra um abrandamento no crescimento do consumo de podcasts, em 2021, 41,5% dos portugueses que utilizam a Internet dizem ter escutado algum podcast no mês anterior, mais 3,1 pp. que em 2020 e 7,2 pp. que em 2019. O formato afirma-se cada vez mais no ecossistema mediático português, e no informativo, em particular. Apesar de habitualmente considerado como uma prática isolada ou individualizada, os dados relativos à descoberta de novos conteúdos sugerem que existe um substrato fortemente conectado e social associado a esta prática, em que a influência de outros tem impacto nos padrões individuais de utilização.

Media locais e regionais
As questões relativas à imprensa local e regional revelam uma estrutura de consumos muito rica e muito relevante em pandemia. Confinados à sua residência, muitos portugueses encontraram na sua geografia próxima novas dinâmicas quotidianas, para as quais a informação e consciência sobre a realidade local são fundamentais. Soma-se, a este dado, e como já foi referido, o facto de muitos portugueses serem da opinião de que a dimensão local e regional está mal representada nos meios de comunicação social, em geral. A informação sobre a pandemia domina o espectro dos temas mais consultados na imprensa regional, seguida pela meteorologia, política local, informação sobre restaurantes e outro comércio e economia local. Os dados deste ano do ReutersDNR_PT_2021 revelam também que os portugueses recorrem a várias fontes para se informar sobre temas locais, seja media tradicionais ou grupos / páginas em redes sociais.

Alguns destaques comparativos entre outros Países e Portugal

Confiança nas notícias aumentou em quase todos os países
A confiança nas notícias cresceu, em média, seis pontos percentuais durante a pandemia – quase metade de amostra total (44%) afirma confiar na maioria das notícias, na maior parte do tempo. Tal altera, parcialmente, as quedas na confiança média nos últimos anos que, em certa medida, foram impulsionadas por debates políticos e sociais cada vez mais polarizados. A Finlândia continua a ser o país com os níveis mais altos de confiança geral (65%). Os Estados Unidos têm os níveis mais baixos (29%), refletindo uma eleição divisiva e as consequências do assassinato de George Floyd.

Desinformação e COVID-19
A preocupação com a desinformação continua elevada, com 58% da amostra global a mostrar preocupação sobre o que é verdadeiro ou falso na internet, quando se trata de notícias. Um número elevado de entrevistados afirma ter visto mais desinformação sobre o coronavírus do que qualquer outro assunto, incluindo política. Estes entrevistados expressam maior preocupação com o papel desempenhado pelos políticos na divulgação de informações imprecisas ou enganosas sobre a COVID-19, seguidos por pessoas comuns, ativistas e jornalistas. A preocupação foi ainda maior no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro fez muitas afirmações falsas sobre a pandemia.

Um voto de confiança em notícias imparciais
O crescimento dos media online e sociais tem, nalguns casos, incentivado o crescimento de organizações de notícias e indivíduos que assumem posições partidárias de forma mais aberta do que no passado. Mas as evidências da investigação, apoiadas em entrevistas qualitativas levadas a cabo em quatro países pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, mostram que o público ainda apoia fortemente os ideais de notícias imparciais e objetivas, embora reconheça que às vezes eles próprios são atraídos por conteúdos mais opinativos e menos equilibrados. Em todos os países, a maioria dos entrevistados (74%) diz preferir notícias que refletem uma variedade de pontos de vista e lhes permitem formar a sua própria opinião. A maioria também considera que os meios de comunicação devem tentar ser neutros em todas as questões (66%), embora alguns grupos mais jovens pensem que ‘imparcialidade’ pode não ser apropriada ou desejável em alguns casos – por exemplo, em questões de justiça social.

Smartphones crescem
O uso de smartphones para consumo de notícias (73%) cresceu, com a dependência destes dispositivos também a aumentar, possivelmente por causa dos confinamentos, devido à pandemia. O uso de laptops, desktops e tablets para aceder a notícias está estável ou em queda.
Podcasts crescem menos
O crescimento dos podcasts diminuiu, em parte devido ao impacto das restrições ao movimento. Os dados do nosso estudo mostram que o Spotify continua a ganhar terreno em relação aos podcasts da Apple e do Google em vários países, e o YouTube também beneficia da popularidade dos podcasts híbridos e baseados em vídeo.

LINKS PARA OS RELATÓRIOS INTERNACIONAL E PORTUGUÊS
Digital News Report
Digital News Report Portugal

SOBRE
O Reuters Digital News Report 2021 (ReutersDNR 2021) é o décimo relatório anual do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ) e o sétimo relatório a contar com informação sobre Portugal. Em 2021 participaram 46 mercados de notícias, Portugal incluído. Enquanto parceiro estratégico, o OberCom – Observatório da Comunicação colaborou com o RISJ na conceção do questionário para Portugal, bem como na análise e interpretação final dos dados.
METODOLOGIA Todos os dados, salvo indicação em contrário, têm por fonte a YouGov Plc. Inquérito realizado em 46 países/mercados; Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal, Irlanda, Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Bélgica, Holanda, Suíça, Áustria, Hungria, Eslováquia, República Checa, Polónia, Croácia, Roménia, Bulgária, Grécia, Turquia, Coreia do Sul, Japão, Hong Kong, Malásia, Filipinas, Taiwan, Singapura, Austrália, Canadá, Brasil, Argentina, Chile, México, Quénia e África do Sul. O tamanho total da amostra foi de 92.155 adultos com cerca de 2.000 por mercado (1.501 em Hong Kong). O trabalho de campo foi realizado no final de Janeiro/início de Fevereiro de 2021. O inquérito foi levado a cabo online. As amostras foram reunidas utilizando quotas nacionais representativas da idade, sexo, região em todos os mercados, e educação em todos os mercados excepto Bulgária, Croácia, Grécia, Índia, Indonésia, Quénia, Malásia, México, Nigéria, Filipinas, Roménia, África do Sul, Tailândia, e Turquia. Nos EUA, Reino Unido, Dinamarca, Suécia, Noruega e Itália, aplicaram-se quotas políticas adicionais com base na escolha dos votos nas eleições nacionais mais recentes. Os dados em todos os mercados foram também ponderados com base em dados de recenseamento/indústria aceites. Os dados da Índia, Quénia, Nigéria e África do Sul são representativos dos jovens falantes de inglês e não da população nacional, porque não é possível chegar a outros grupos de uma forma representativa utilizando um inquérito online. O inquérito foi realizado em inglês nestes mercados e restrito aos 18 a 50 anos de idade no Quénia e na Nigéria. Os resultados não devem ser considerados representativos a nível nacional nestes países. Mais geralmente, as amostras online tenderão a subrepresentar os hábitos de consumo de notícias de pessoas mais velhas e menores rendimentos, o que significa que a utilização online está tipicamente sobre-representada e a tradicional utilização offline subrepresentada.
Ficha Técnica
Título: Reuters Digital News Report – Portugal
Data: junho de 2021
Fontes: Inquérito Reuters Digital News Report 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020 e 2021.
Coordenação Científica Internacional: Reuters Institute for the Study of Journalism Nic Newman, Richard Fletcher, Anne Schulze, Simge Andı, Craig T. Robertson, and Rasmus Kleis Nielsen
Coordenação do Apoio à recolha em Portugal: OberCom – Observatório da Comunicação
Gustavo Cardoso
Autoria: Gustavo Cardoso, Miguel Paisana, Ana Pinto-Martinho

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