O que é o ‘Jornalismo de qualidade’?

Janeiro 11, 2019 • Jornalismo, Jornalismo digital, Top stories, Últimas • by

Qualidade é a palavra-chave para o jornalismo atualmente. Mas, no final de contas, pode não significar grande coisa.

Numa conferência Google Newsgeist realizada em Lisboa no ano passado, mais de 150 jornalistas e especialistas em tecnologia debateram como é que o ‘bom’ jornalismo pode sobreviver e prosperar numa era de desinformação, competição e luta pela atenção. Aqui ficam alguma reflexões suscitadas por esse debate.

A maior parte de nós parte do princípio de que o jornalismo que fazemos tem ‘qualidade’ e o que falta é conseguir captar a atenção (e a recompensa) que ele merece. E, cada vez mais, isso significa refletir sobre se redes e plataformas como o Facebook, o Youtube ou o Twitter podem ajudar nesse processo. Mas também significa estabelecer interações com os utilizadores que os liguem ao nosso conteúdo ‘de qualidade’ em vez do muito lixo que entope essas redes. Eu sou da opinião que devemos talvez dar um passo atrás e pensar previamente, de uma forma estratégica, sobre o que é que afinal entendemos por jornalismo ‘de qualidade’.

A economia da atenção

Certas empresas, como a Apple, têm percebido isso, com as inovações recentes introduzidas em produtos como o seu agregador de notícias, de forma a moldar a economia de atenção e os canais de atenção que fluem pelos vários aparelhos da marca.

Por outro lado, iniciativas de reforço da credibilidade do jornalismo, como o Trust Project, estão a desenvolver ‘sinais’ ou ‘indicadores de confiança’ que promovem ‘patamares de transparência que nos ajudam a avaliar facilmente a qualidade e credibilidade do jornalismo’. Os próprios meios de comunicação social estão a melhorar muito a forma como ajudam os seus leitores e utilizadores a encontrar o conteúdo ‘de qualidade’ que eles produzem, através de ferramentas como as newsletters ou as apps personalizadas.

Mas, afinal, para o consumidor de notícias, o que significa ‘qualidade’?

Newsgeit em Lisboa: de que falamos quando falamos de qualidade?

Newsgeit em Lisboa: de que falamos quando falamos de qualidade?

Tradicionalmente, o conceito de ‘jornalismo de qualidade’ estava associado ao formato ‘broadsheet’ (na época dos jornais de grandes dimensões) e referia-se a um jornalismo sério, de elite e sobre temas importantes. De certa maneira, esse ‘jornalismo de qualidade’ era definido (até pelos próprios jornalistas) como ‘não sendo’ populista, de entretenimento ou sobre assuntos triviais. Mas o que é a ‘qualidade’ numa era em que os aspetos pessoais e emocionais, aquilo que é subjetivo e imediato, são importantes fatores de canalização do interesse do público, dos debates que se estabelecem e da compreensão dos acontecimentos? E como encontrar essa ‘qualidade’ numa época de conteúdos distribuídos e desintermediados, que nos aparecem misturados com a nossa ‘dieta’ individual de fluxos de informação controlados por algoritmos?

A qualidade refere-se à natureza das coisas. Mas isso é um pouco genérico. Então e se pensássemos naquilo que ‘não é qualidade’? O problema com essa abordagem é que, para um meio de comunicação social, a quantidade (ou alcance) ainda é um fator a ter em conta quando se pensa naquilo que podemos produzir. Ou quando pensamos no tempo que cada utilizador tem para consumir o conteúdo. Ou como esse utilizador vai pagar por ele. Até editores e produtores de nicho precisam de uma quantidade suficiente de utilizadores para gerarem um rendimento aceitável.

Mas, de momento, vamos pôr de lado o juízo de valor que parece implicar que o jornalismo ‘de qualidade’ é ‘melhor’ e vamos focar-nos naquilo que isso pode significar de um pronto de vista prático e editorial. Ou seja, como podemos dar ao consumidor uma experiência de ‘qualidade’ superior?

1. Qualidade = Experiência de utilização

Não importa quão valiosa é a ‘qualidade’ de um determinado conteúdo se ninguém o consumir. E isso atualmente depende sobretudo de outros, através das redes sociais e dos motores de pesquisa. Um do debates mais interessantes no referido Newsgeist abordou a questão das plataformas e os esforços que estas estão a fazer para destacar os conteúdos de qualidade e tornar mais fácil descobri-los e descarregá-los. Essas plataformas podem estar a ficar mais competentes na descoberta de desinformação e dos conteúdos prejudiciais ou maliciosos. Mas a verdade é que não estão tão bem equipadas como os jornalistas para avaliar a qualidade editorial daquilo que lá fica. Se é que, de todo, lhes queremos dar essa responsabilidade?

O primeiro passo é retomar aquele eterno imperativo jornalístico: tornar o conteúdo ‘legível’. Isso significa eliminar toda a fricção e confusão naquele milésimo de segundo entre o acesso e o clique para ir embora. E isso tem tanto a ver com o conteúdo como com o interface. Para um utilizador ‘apressado’, uma centena de palavras do site da Axios pode ter mais ‘qualidade’ que uma cuidada abertura de cinco parágrafos a descrever cuidadosamente a paisagem e o enquadramento da história.

A maior parte das redações digitais estão a trabalhar forte nesta área, mas então porque razão decidem cobrir imediatamente os seus artigos com anúncios pop-up para desviar a atenção?

 

As plataformas podem estar a melhorar na sua capacidade para identificar a desinformação. Mas não estão tão bem preparadas como os jornalistas para avaliar a qualidade editorial dos conteúdos.

 

2. Qualidade = Serviço + Curadoria

Este aspeto ter a ver com personalização. E pode significar que menos é mais. Um leque demasiado alargado de escolhas pode ser contraproducente. Daí o número limitado de histórias e de sumários propostos por aplicações como o CompassNews. Na prática, esta app usa indicadores de inteligência artificial para personalizar a oferta informativa de acordo com tópicos escolhidos de acordo com os seus interesses, mesmo tendo como ponto de partida uma escolha editorial humana.

Mas este tipo de proposta tem que fazer parte de um serviço que permita igualmente feedback e interação. O jornal London Times, por exemplo, criou grupos temáticos de Facebook, alguns deles dirigidos pelos próprios leitores. Outros dão mais atenção ao funil de conversão das assinaturas. Mas mesmo isso tem que ser algo mais do que um mero exercício de marketing. Por exemplo, de que modo estamos avaliar a qualidade do serviço seis meses depois de um subscritor o ter assinado?

3. Qualidade = Valor Acrescentado

A ‘notícia’, enquanto relato do que está a acontecer no momento, tem distribuição imediata. Claro que as ‘notícias na hora’ continuarão a ser um serviço bastante pertinente para muitos meios de comunicação social. Mas, num mundo permanentemente conectado, o valor acrescentado pode estar no contexto, análise e comentário aos acontecimentos. E, aqui, a competência, a pesquisa e a experiência contam tanto ou mais que a novidade. Faça investigação em profundidade. Não faça duplicação do que já existe.

Isso pode significar ter que prestar mais atenção aos 30 por cento da sua produção informativa (mais coisa menos coisa) que não tem qualquer audiência. Olhar para as métricas de leitura pode ajudar a ‘puxar’ pelos artigos menos vistos ou a encontrar melhores formas de os apresentar. Mas também pode significar que deve fazer algo diferente com os seus recursos ou com a atenção dos seus utilizadores. Deixe para as rotinas aquilo que pode ser automatizado.

4. Qualidade = Relevância

Os utilizadores são todos diferentes. E os indivíduos também são diferentes em diferentes fases da sua vida ou em diferentes horas do seu dia. As chamadas ‘filter bubbles’ são na realidade uma oportunidade. Eu nunca percebi muito bem porque nos preocupamos com elas. A pesquisa comprova que os utilizadores de redes sociais usam mais fontes de informação e não menos. Claro que podemos desafiar os seus preconceitos, mas primeiro é preciso perceber onde é que eles começam. Neste sentido, eu até diria que os tabloides populares de grande circulação podem ser considerados informação ‘de qualidade’. Muitas vezes, eles são brilhantes na forma como tornam as notícias importantes relevantes para uma audiência que à partida poderia até não estar muito interessada nelas. Muitas vezes, podemos não gostar da forma como o fazem, mas a sua capacidade para interessar uma audiência massiva e diversa devia fazer-nos refletir.

5. Qualidade = Diversidade, Otimismo e Descobertas ao acaso

Nós não entendemos muito bem porque é que as pessoas consomem ‘notícias’. Pode ser apenas para estarem ‘informadas’. Mas o ‘trabalho’ de consumir notícias também pode ser uma recompensa em si mesmo. Isto é uma boa notícia para os jornalistas que produzem informação baseada em provas e evidências. Mas esse trabalho tem também a ver com divertimento, espetáculo, rituais e resolução de problemas. Pare de olhar esses temas como tendo menos ‘qualidade’. Às vezes nós queremos ir ao ginásio exercitar os músculos, mas às vezes também queremos apenas ficar a apanhar banhos de sol!

 

Se as redações forem capazes de perceber melhor o efeito que têm na vida das pessoas, então serão mais capazes de entender qual é o valor que têm para essas pessoas e para as comunidades em que se inserem.

 

As pessoas nem sempre sabem muito bem aquilo que querem. Surpreenda-as. Certamente que um elemento da informação de qualidade é dizer às pessoas algo que elas não sabiam mas também pode ser dizer-lhe algo que não sabiam que queriam saber. Para criar esse tipo de diversidade é preciso agitar as presunções da redação e os sistemas que ela usa. Adoro aquele exemplo de uma redação norueguesa que de tempos a tempo trocava todas as editorias durante um dia. Os jornalistas de desporto a fazerem política e assim por diante. Ao que parece o tráfego até aumentou. Refresque os processos e a redação. Olhe para dentro. Contrate a pensar em coisas diferentes. Muitas vezes, a pior ‘caixa de ressonância’ que existe é a próprio redação.

6. Qualidade = Impacto

Nós refletimos sobre a qualidade a partir do conteúdo ou das formas de consumo. Mas, e o que dizer dos efeitos do jornalismo? As universidades, por exemplo, têm o imperativo de medir o ‘impacto’ da sua investigação e para isso recorrem a métricas como as citações ou referências em revistas científicas ou relatórios oficiais. Se as redações forem capazes de perceber melhor o efeito que têm na vida das pessoas, então serão mais capazes de entender qual é o valor que têm para essas pessoas e para as comunidades em que se inserem. Ultimamente, os jornalistas começaram a falar bastante – e publicamente – acerca da importância do seu trabalho para o funcionamento da democracia e a saúde das sociedades democráticas. Mas, que provas apresentam dessa importância, para alem da óbvia necessidade de auto-preservação? Por acaso perguntaram aos seus utilizadores?

7. Qualidade = Experiência Emocional

Tradicionalmente, nós descartámos as emoções no jornalismo e relegámo-las para a categoria de ‘sensacionalismo’. Mas a verdade é que as emoções, os sentimentos, a identidade e os valores fazem parte integrante da vida das pessoas e da sua experiência informativa. Leve-os a sério. Eu tenho advogado há muito tempo um tipo de jornalismo ‘emocionalmente conectado’. E a verdade é que funciona, mesmo quando se trata de temas sérios.
Uma recente aplicação de grande sucesso usa um algoritmo que recorre a análise de sentimento dos artigos para construir um fluxo de informações personalizado, que fornece aos utilizadores uma ‘sinfonia’ de conteúdos emocionalmente equilibrada. A ideia é proporcionar uma experiência psicológica diversificada. E o consumo de notícias amentou.

 

O conceito clássico de notícia está a mudar ao ponto de algumas pessoas já não gostarem daquilo que existe.

 

O Neva Labs está a trabalhar afincadamente no lado de ‘bem-estar’ das notícias, procurando criar sistemas que permitam perceber como um excesso de informação baseada em acidentes e catástrofes pode afastar utilizadores e como uma dieta informativa mais ‘saudável’ pode melhorar a sua experiência informativa.

8. Qualidade = Para além das ‘Notícias’

A notícia é algo que está a mudar profundamente na sua ‘natureza’ e na sua ‘qualidade’. Talvez o jornalismo já não seja suficiente. A verdade é que nós sempre percepcionámos o mundo através de outras fontes de informação para além do jornalismo. Tal como Hossein Derakhshan sublinha, o conceito clássico de notícia está a mudar ao ponto de algumas pessoas já não gostarem daquilo que existe. Quase sempre os jornalistas respondem alterando a maneira como fazem as coisas: usando vídeo, misturando dados, etc. Mas Hossein sugere que devemos olhar para expressões culturais que também informam e influenciam as pessoas, mas com outra abordagem, como o teatro ou a música. Talvez esteja na hora de as redações começarem a colaborar com outros ‘comunicadores’ e criativos.

Este artigo foi publicado originalmente na página do Medium de Charlie Beckett. É usado aqui com a permissão do autor.

 

 

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