As fontes anónimas devem ser banidas do jornalismo político?

Outubro 5, 2016 • Ética e Deontologia, Últimas • by

Estão as fontes anónimas a transformar a política num “teatro de sombras”?

“Fonte próxima de”, “alguém íntimo”, “um amigo”, “um confidente”, “um ex-ministro”. Um artigo político recente no Liberation, em França, continha pelo menos 11 fontes anónimas em 1340 palavras. No dia seguinte foi publicado um outro artigo político, no Le Parisien, que listava 5 fontes anónimas em 460 palavras.

Por de trás destas fontes estão políticos, eleitos ou não, que querem comentar os assuntos, sem ser de uma forma pública. Mas sem mencionar os seus nomes e os seus cargos é impossível para o leitor saber quem está a falar, ou de onde são. É impossível saber, de facto, se são 11 fontes ou apenas uma pessoa. Por exemplo, “o Governo”, “alguém próximo do presidente”, “um assessor” podem ser a mesma pessoa.

Foram contabilizadas onze fontes anónimas neste artigo - Créditos: AA

Foram contabilizadas onze fontes anónimas neste artigo – Créditos: AA

Fontes secretas

No artigo do Liberátion havia efetivamente 5 ou 6 fontes diferentes, disse-me Grégoire Biseau, o editor-in-chief adjunto do jornal, responsável pela editoria de política. Ele reconhece que a utilização de muitas fontes off-the-record é uma prática desastrosa e apelou ao equilíbrio entre citações de fontes anónimas e de fontes identificadas.

Pressão presidencial

Mas se o problema das fontes anónimas é uma questão eterna, é ainda mais relevante com o lançamento da nova campanha para as eleições presidenciais francesas. Em França o jogo político já parece muito secreto: de um lado está a linha oficial: enquadrada de forma institucional, que é muitas vezes revista e aprovada antes da publicação. Do outro lado há citações que, embora evitando o desastrado e indireto discurso jornalístico, nem sempre são atribuídas a quem as proferiu.

“Usar sempre fontes anónimas é a solução mais fácil”, afirmou Gérard Leclerc, um jornalista político e antigo diretor do canal LCP. “Isto faz parte da desresponsabilização do jornalismo e da política. Quem pode dizer-me a verdade? Estamos a transformar a política num teatro de sombras”.

No New York Times, uma diretiva recente proibiu o uso de fontes anónimas, exceto em casos raros que envolvam a segurança nacional. Na Agência France Press (AFP) o uso de fontes deve ser “a exceção, não a regra” e a AFP insiste que “antes de garantir o anonimato das fontes é necessário perguntar-lhes qual a sua motivação e se a distorção é possível”.

Como identificar citações sem referência às fontes?

Citações sem referência às fontes são arriscadas: não só não é impossível verificar as afirmações, assim como uma “língua afiada” pode deturpar qualquer coisa, sob anonimato. Uma fonte anónima pode inclusive tirar proveito do jornalista ao qual confidencia comentários off-the-record.

Mas Grégoire Biseau afirma que isto não acontece necessariamente, e acrescenta que as fontes anónimas podem “oferecer uma alternativa à versão oficial: elas podem acrescentar um toque de ironia, um comentário fora do padrão, um elemento eloquente e isto pode não ser necessariamente a explorar o jornalista”.

Pelo contrário, Gerard Leclerc acredita que estamos a testemunhar um reino do politicamente correto. Um paradoxo na era digital: “enquanto tudo é conhecido e tudo é dito, não há um off-the-record oficial, (mas) na realidade ele está por toda a parte”.

Um poder desigual

Não é também responsabilidade do jornalista convencer a sua fonte a falar on the record? Uma batalha perdida, acredita Grégoire Biseau. “…há uma esfera de poder no governo que é inacessível, onde tudo é ultra-codificado”. O equilíbrio do poder não favorece os jornalistas, continua Biseau. “Pode trabalhar-se uma fonte durante 5 anos e perdê-la em cinco segundos ao atribuir-lhe uma citação sem a sua permissão”.

“A penalização é imediata pois a fonte, que se considera traída, pode não voltar a falar durante meses”, diz Biseau. “Sem fonte, não há informação que valha a pena”, acrescenta.

A política do New York Times que quer banir as fontes anónimas pode não ser suscetível de aplicação no Reino Unido, segundo diz Roy Greensalade, do Guardian. “Aqui, sem anonimado não há artigo…é ao mesmo tempo uma maldição e uma bênção”, acrescenta.

Em França a história repete-se. E infelizmente é muito pouco provável que mude antes das eleições presidenciais de 2017.

 

Reproduzido de W.I.P. (Work In Progress) em Slate.fr
Artigo em português traduzido do inglês
Foto principal: ‘Suspendu’ by Max Sat, Flickr CC licence
Foto no texto: Alice Antheaume

Print Friendly

Tags:, ,

  • Rui Viana Pereira

    Este convite ao debate é muito interessante porque assenta numa opção de fundo, embora ela nunca seja mencionada: a comunicação social pensada e executada essencialmente como porta-voz dos poderes públicos. Ora os poderes públicos e as entidades organizadas que os sustentam agem hoje em função de estratégias de comunicação finamente delineadas, para as quais aliás são contratados técnicos especializados. Vejamos um caso típico: há cerca de 5 anos, fez-se uma enorme algazarra (na comunicação social e, em sequência, na rua) acerca dum projecto legislativo destinado a reduzir a parte da TSU paga pelas entidades patronais. Se esse suposto projecto chegou ao conhecimento público antes da sua aprovação em reunião de ministros, só pode ter sido porque «alguém» quis que assim acontecesse. Num espaço de tempo inesperadamente curto e com surpreendente facilidade, os poderes públicos deixaram cair o projecto, aparentemente por acção da «opinião pública». Ora o que aconteceu na realidade é que esse não era o objectivo principal dos poderes públicos: ao mesmo tempo decorria silenciosamente outro processo legislativo (um vasto quadro de isenções e reduções da TSU para as empresas) que «ninguém» quis que fosse conhecido; esta legislação passou com toda a facilidade, graças a uma estratégia de comunicação que lançou uma cortina de fumo protectora, abrindo a torneira das «fontes» num caso, fechando-as no outro.
    Se, ao invés, um jornal estabelecer como regra dar voz a todas as entidades sociais existentes fora do campo dos poderes públicos (e, diga-se de passagem, económicos), todos os dilemas expostos neste artigo desaparecem por artes mágicas, para dar lugar, e ainda assim apenas em casos bastante raros, a um outro: proteger certas fontes da acção silenciadora e repressiva exercida pelos poderes públicos. Mas este problema de protecção é simples e está resolvido técnica e eticamente há mais de um século, não carece de grande debate. Esta facilidade resulta do facto de, neste caso, a autonomia do editor se manter intacta; ele pode verificar, confirmar ou infirmar a fonte à sua vontade; a possibilidade de chantagem a que está sujeito (ou seja, a ameaça de que a fonte «seque» futuramente) é diminuta ou nula, tanto mais que os seus temas e fontes são virtualmente infinitos – ao contrário do que sucede quando o jornalista se faz porta-voz dos poderes públicos, que constituem uma fonte uniforme e cujos recursos disponíveis (para o jornalista) são limitados.
    Quando o editor é objectivamente um mero porta-voz dos poderes-públicos (directa ou indirectamente, consciente ou inconscientemente – os aspectos subjectivos não são para aqui chamados), quem toma as decisões de fundo, quem mantém autonomia plena, é a estratégia de comunicação das suas fontes; o editor torna-se um mero instrumento subordinado, ao serviço duma estratégia de comunicação. Por isso creio que o debate, nos termos aqui propostos, é um beco sem saída.

Send this to friend