Vice News: A batalha pela autenticidade

Junho 4, 2015 • Negócio, Top stories • by

Numa altura em que os canais de TV estão a viver um declínio nas audiências, os jornais estão a ser classificados como coisa do passado e as páginas web estão a debater-se com as receitas das notícias online, a Vice News parece ter decifrado o código.

Ao mesmo tempo que as organizações de media enfrentam alguma incerteza quanto ao futuro, o canal global de notícias online Vice News está a atrair uma audiência crescente de gente jovem. Desde o seu lançamento em março de 2014 conseguiu captar 1.3 milhões de subscritores no Youtube e 244 milhões de visualizações de vídeo, segundo Kevin Sutcliffe, diretor de programação do canal para a Europa.

Dirigindo-se a uma plateia no Reuters Institute for the Study of Journalism, na Universidade de Oxford, Sutcliffe sustentou que os dados das audiências demonstram que a Vice News tem “captado a atenção de uma geração que tem vindo a virar as costas às notícias mainstream.” O canal, uma divisão do grupo Vice Media, tem-se tornado o canal noticioso digital a registar o maior índice de crescimento no mundo, contando já com escritórios em Nova Iorque, Londres, Espanha e, mais recentemente, em Paris.

Na sua intervenção, intitulada «The Battle for Authenticity, the Future of News, Current Affairs and Documentary», Sutcliffe defendeu que as audiências mais jovens estão agora à procura de autenticidade, mais do que confiança. “A confiança era o argumento convencional usado pela BBC e pelos grandes canais – para os quais as pessoas se voltariam em tempos de crise”, afirmou. “Isso já não é mais assim. As pessoas agora voltam-se para muitas fontes. Podemos agarrar-nos à ideia da confiança, mas a confiança agora já não é suficiente. O importante agora é estar lá. É ser autêntico”.

O sucesso da Vice News reflecte uma mudança fundamental no padrão de consumo de notícias, defendeu Sutcliffe, antigo Deputy Head of News and Current Affairs no Channel 4 do Reino Unido. “As notícias hoje rebentam muitas vezes no Twitter. Não nascem nas redacções. Muitos dos nossos jornalistas são especialistas no Twitter e na investigação de histórias a partir do Twitter. As redes sociais estão entre os principais drivers responsáveis pela expansão da Vice News”, afirmou. “Estar na web deu-nos todo um novo impulso. Nós estamos a construir para as pessoas, não estamos a tentar atrair as pessoas com a nossa fachada altamente polida”.

A Vice News está a ser promovida como alternativa ao storytelling convencional que integra a programação das televisões mainstream. “Se olharmos à nossa volta, a maior parte das notícias e temas de actualidade não são mais do que «sound bites» empacotados que têm de encaixar numa grelha. [Na Vice News] eu tenho a possibilidade de passar o conteúdo com a duração que ele merece. Se um conteúdo funcionar com uma duração de sete minutos posso passá-lo com sete minutos. E isso é uma grande mudança”, disse Sutcliffe. “Não tenho de estar limitado a slots de dois minutos ou de uma hora”.

O canal de notícias digital foi lançado com o objectivo de atingir uma audiencia com uma faixa etária abaixo dos 35 anos, depois da Vice Media ter identificado um mercado para as notícias especialmente orientadas à população jovem. “Não é que esta população não se interesse por notícias”, defendeu Sutcliffe, “nós é que falhámos em despertar o seu interesse”.

A adesão dos consumidores jovens à Vice News deve-se, em grande parte, ao facto do canal não ser fortemente regulado, podendo passar material mais pesado, explicou: “não o fazemos de forma gratuita, mas podemos mostrar cadáveres. Este tipo de conteúdos não se vê nos canais de notícias mainstream ou na TV terrestre por causa da regulação. Nós queremos mostrar as coisas que são difíceis de ver e procuramos estabelecer uma ligação emocional às pessoas, afirmou.

O canal tenta ser “imersivo”, “estar no terreno” e mostrar o mundo de uma forma “crua e áspera”, segundo Sutcliffe. Os reporteres procuram usar uma liguagem que as pessoas jovens entendem. “Um aspecto importante é o facto de os nossos reporteres serem da mesma idade dos consumidores”, afirmou. “Pedimos aos nossos jornalistas que respondam [aos acontecimentos onde estão em reportagem]. Não para ficar presos e circunscritos ao local numa cobertura óbvia, mas sim para contar o que apreendem como se estivessem a partilhar a história com um amigo”. “Se tivermos de sair para algum lado tem de ser para a rua. Não saímos para ficar sentados num quarto de hotel, mas para descobrirmos o que é que está a acontecer. Não saímos para assistir aos acontecimentos a partir de uma varanda”, afirmou Sutcliffe.

O responsável da Vice News nega que esta abordagem coloque em perigo os seus reporteres. Nem admite que a Vice News esteja disposta a correr riscos, quer com a sua equipa de reporteres quer com os deus freelancers. “Tenho sido acusado de fazer o outsourcing do perigo”, afirmou. “Antes de enviarmos alguém para o terreno nós fazemos a mesma avaliação de risco e tomamos os mesmos procedimentos que são seguidos pela BBC, Channel 4, CNN, etc.”, acrescentando que a Vice News não aceita trabalho de freelancers sem que tudo esteja acertado previamente.

No entanto, ele admite que o canal recorre muitas vezes a material das plataformas das redes sociais, como o Twitter e o Youtube, mas garante que são feitos esforços consideráveis para autenticar os conteúdos externo. “Dispendemos muito tempo a garantir que o material é real e que não foi sujeito a photoshop, etc. Também temos um processo de verificação dos factos”, garantiu.

Quando questionado se o canal aposta mais no imediato, sacrificando o contexto, Sutcliffe defende que os reporteres são encorajados a explicar o cenário dos acontecimentos que estão a cobrir, cabendo aos espectadores descobrir o contexto e a história a partir do «output» geral do canal. E negou que a Vice News sacrifique a análise política e noticiosa em benefício dos “cliques” ou “likes”.

E quando lhe perguntam se a Vice News é mais entretenimento do que notícias, Sutcliffe sublinha a intenção do canal em fazer a diferença. “Fazemos investigações e queremos fazer mais”, afirmou.

“Não é entretenimento, queremos incluir as pessoas mas também queremos ter impacto”, afirmou. Sutcliffe salienta um documentário recente feito no seio do Estado Islâmico em Raqqa. Medyan Dairieh, o reporter, esteve três semanas infiltrado no seio do Estado Islâmico, conseguindo um acesso sem precedentes ao grupo no Iraque e na Síria, sendo o primeiro e único jornalista a documentar os trabalhos no seio deste grupo. O documentário já registou, à data, entre 15 a 20 milhões de visualizações.

Crédito da foto: Vice News

Texto traduzido do inglês.

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