O declínio do valor económico da informação na sociedade em rede

Junho 15, 2015 • Negócio, Top stories • by

Qual é o elemento decisivo que explica a aparente dificuldade dos meios de comunicação social para encontrarem ou implementarem modelos negócios viáveis na era digital? De acordo com um artigo recente publicado na revista OBS*, esse elemento central é o declínio do valor económico da informação na sociedade em rede. Nesse artigo, argumenta-se que todas as tentativas que até ao momento existiram para encontrar modelos de negócio alternativos para a era digital falharam não porque fossem erradas ou tenham sido mal implementadas, mas sim porque a informação – todas as formas de informação – perde necessariamente valor económico quanto se passa de um paradigma analógico para um paradigma digital.

Hoje em dia, a maior parte das empresas de media continua a tentar retirar das suas audiência digitais o mesmo valor que conseguiam retirar das suas audiências analógicas; e tenta obter dos anunciantes o mesmo volume de investimento que recebia nos seus produtos analógicos. Eis o paradoxo: a maior parte dessas empresas têm audiências muito maiores nas suas operações digitais do que nos seus produtos analógicos. E, no entanto, estes continuam a representar a parte principal das suas receitas. Este é um problema que qualquer pessoa que trabalhe nos media conhece bem e que é comum a todas as empresas do sector. Na verdade, este é “o” problema que toda a gente nesta indústria está a tentar resolver.

Porque será? Por que razão não conseguem os media retirar das suas mais volumosas audiências digitais o nível de receitas que conseguem com as suas audiências analógicas? A hipótese colocada neste artigo é que isso resulta de um declínio do valor económico da informação. Ou seja, o valor que as empresas de media conseguem capturar em resultado da compra e venda de produtos e serviços de informação.

Claro que medir o valor da informação não é fácil! O valor de uso da informação é subjectivo e está ligado ao benefícios que cada indivíduo tira da sua utilização. Não pode ser medido externamente. Mas o valor de troca da informação é objectivo e pode ser medido no mercado de informação através do preço a que os produtos e serviços de informação são transacionados. Ao fim ao cabo, esse “preço” reflecte-se em dois indicadores do valor da informação: o RMPU (Rendimento Médio por Utilizador), que reflecte o preço que os utilizadores pagam pelos produtos e serviços de informação que usam; e o CPM (Custo por Mil), que reflecte o preço pago pelos anunciantes para atingirem uma determinada audiência.

O artigo citado recolhe dados de audiências e receitas de várias empresas de media e de internet e estuda em detalhe a revista semanal Autohoje, olhando para as respectivas receitas analógicas e digitais. E a conclusão é que existe um enorme fosso entre as primeiras e as segundas. A revisa semanal Autohoje, por exemplo, conseguiu em 2013 um total de receitas de 118 euros por utilizador, com uma audiência total media de 10.330 leitores. Mas, comparativamente, obteve apenas 0,22€ por cada um dos 780 mil utilizadores únicos mensais do website. O CPM, por seu lado, é cerca de 15 vezes inferior no website em relação a uma métrica equivalente na revista.

Este não é um problema específico do Autohoje. Quando aplicamos os cálculos e RMPU ou CPM às receitas de qualquer empresa de media chegamos à mesma conclusão: pode ser 5 vezes, 10 vezes ou 15 vezes, mas as receitas digitais serão sempre muito inferiores às receitas analógicas. O que parece confirmar a hipótese de que há algo no digital que implica uma redução do valor económico da informação. O que será?

Bem, para responder a isso precisamos de voltar à teoria da sociedade em rede. Primeiro que tudo, é uma rede. O que significa que, por oposição aos fluxos de informação lineares do passado, não tem centro e portanto não pode ser centralmente comandada. E, depois, é uma rede de computadores. O que significa que a comunicação entre eles é digital, ou seja, numérica (matemática) e binária. E isto – a passagem do analógico ao digital – converte-se no elemento central do novo paradigma. Dentro de um computador não há imagens, vídeos, sons ou textos; há apenas “zeros” e “uns”. Isto significa, entre outras coisas, que um tablet ou um smartphone pode reproduzir todos os tipos de conteúdos – a isso chama-se “convergência” – e tanto pode receber como produzir esses mesmos conteúdos – tornado os indivíduos também produtores de informação, para além de seus consumidores. Isto também significa que qualquer computador pode reproduzir conteúdos que estejam alojados noutro computador – desafiando as leis de direitos de autor e de propriedade através da facilidade de partilha – e é capaz de decompor e recombinar o código digital, permitindo o “remix” de todos os tipos de conteúdo. Como as ferramentas para fazer tudo isso estão, cada vez mais, alojadas na rede, o resultado é a facilitação do acesso à produção (e reprodução) de informação. E isso significa… abundância!

Além disso, quando desmaterializada – como acontece no digital – a produção de informação revela uma característica económica muito peculiar: tem altos custos fixos, mas baixos custos marginais, os quais tendem para zero, despojando assim a informação de qualquer valor económico.

Quando consideramos a combinação destes dois fenómenos – abundância e desmaterialização da informação – ficamos a compreender em profundidade por que razão o valor económico da informação está em declínio. É a combinação destes dois fenómenos que explica a deterioração tanto do RMPU como do CPM que os dados estatísticos e financeiros documentam e todas as empresas de media sentem.

Em suma, o declínio do valor económico da informação é um elemento estrutural do novo paradigma de informação e comunicação em que vivemos. Nalguns aspectos, a transição para esse novo paradigma ainda está decorrer e as empresas de media tradicionais estão a tentar adaptar-se a essa nova realidade.

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