Investigação: o Crowdfunding não salvará o Jornalismo

Dezembro 12, 2014 • Negócio • by

Com o declinar das receitas publicitárias e dos lucros durante a década passada, os modelos de negócio tradicionais no campo do Jornalismo foram sendo desafiados. Simultaneamente, modelos alternativos começaram a surgir. O crowdfunding é um dos modelos que tem captado a imaginação do público de modo particular, sendo que uma variedade destas plataformas, potencialmente úteis para projectos jornalísticos, foi lançada em diferentes países. No entanto, novos dados indicam ser improvável que o crowdfunding compense as alterações económicas presentes nesta indústria.

Investigadores da Macromedia University of Applied Sciences, em Colónia, e da Westfalian University of Applied Sciences, em Gelsenkirchen, Alemanha, analisaram 25 plataformas de crowdfunding nos Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, Irlanda, Alemanha, Austrália e Nova Zelândia. Foi escolhida uma abordagem utilizando estudos de caso múltiplos e entrevistas dirigidas aos operadores de plataforma, complementados com a análise de dados recolhidos. As questões-chave centraram-se nos modelos de financiamento, taxas de sucesso, requisitos de marketing e auto-concepção, bem como na organização de projectos jornalísticos.

Alguns dos resultados preliminares foram apresentados na 5ª Conferência da European Communication Research and Education Association (ECREA), decorrida a Novembro de 2014, em Lisboa. Aqui se apresentam alguns destes resultados: apenas seis das vinte e cinco plataformas analisadas (que foram estudadas em Setembro de 2013, e um ano mais tarde, em Setembro de 2014) se dedicam exclusivamente a projectos jornalísticos. Quatro dessas plataformas especializadas estão situadas nos EUA. As primeiras plataformas foram fundadas em 2011 e quinze têm estado operacionais há mais de um ano e, enquanto dez novas plataformas foram lançadas em 2014, quatro encerraram nos 12 meses situados entre 2013 e 2014.

A maioria das plataformas de crowdfunding estudadas ainda se encontram em funcionamento, mas – após uma análise mais detalhada – encontram-se sujeitas a um processo de diferenciação.

Cerca de 100 empregados trabalham para a maior plataforma de crowdfunding nos EUA, a kickstarter. A maioria das demais plataformas emprega um número significativamente mais baixo; para além disso, em muitas plataformas, os seus funcionários trabalham apenas em part-time. A maior parte das plataformas seguem o chamado “princípio ebay”: “Se pretende vender algo, terá que fazer marketing por conta própria.” Apenas três plataformas de crowdfunding oferecem aconselhamento, através do pagamento de uma taxa adicional; a maioria delas (22) opera sem qualquer apoio de marketing para os colaboradores do projecto.

Em mais de três quartos das plataformas analisadas tem que ser alcançado um financiamento mínimo para dar início ao projecto, o que significa que os jornalistas têm que ir para além da produção de conteúdos e empreender esforços típicos da esfera de Marketing.

Dependendo da plataforma, cerca de um terço ou dois terços de todos os projectos reúnem um nível de financiamento suficiente para serem executados. Contudo, a percentagem de projectos jornalísticos é muito baixa – no caso da kickstarter, existiam apenas 426 projectos jornalísticos bem sucedidos, de um total de 70.383 projectos realizados. Dito por outras palavras: apenas 0,6% de todos os projectos executados tinham um fim jornalístico.

No caso da plataforma alemã de crowdfunding, a startnext, os projectos jornalísticos somaram apenas 3%, o que demonstra que o crowdfunding não parece ser uma oportunidade muito atractiva para o Jornalismo.

Concluindo, existe um pequeno “mercado” de plataformas de crowdfunding com algumas diferenças na sua dimensão, modelo de financiamento e alcance geográfico, havendo também uma tendência para a concentração e consolidação de mercado. Enquanto cresce o número de plataformas “generalistas” – até mesmo no segmento jornalístico – aquelas que se especializam em Jornalismo estagnam ou desaparecerem. Olhando para o número de projectos jornalísticos em todas as plataformas, estes parecem ser muito pouco atractivos para os patrocinadores.

Deste modo, o crowdfunding pode ser considerado apenas como um complemento aos clássicos modelos de negócio em Jornalismo. Da perspectiva do mercado actual, o crowdfunding não parece ser capaz de fornecer um financiamento significativo para o Jornalismo.

Traduzido do original em Inglês.
Créditos da foto: Rocio Lara, Flikr

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