Muito entretenimento, pouca informação

Março 9, 2015 • Literacia dos Média • by

Navegam na internet todos os dias usando portáteis ou telemóveis. Assumem que as suas práticas digitais preferidas se relacionam com entretenimento: ouvir música, ver filmes, séries ou vídeos, participar em redes sociais, jogar online. Diariamente, poucos são os que procuram notícias, menos os que procuram informação em diferentes sites, quase nenhuns os que a comparam. Este é um retrato da juventude portuguesa – dos chamados “nativos digitais” – e de algumas das suas práticas no mundo digital.

Jovens, portugueses, em formação. O projecto de investigação “Direitos digitais: Uma password para o futuro”, resultado de uma parceria entre a DECO e a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), teve por base a aplicação de um questionário a jovens portugueses, alunos dos ensinos Básico (3º Ciclo), Secundário e Profissional, a frequentarem estabelecimentos de ensino num dos 18 distritos de Portugal Continental, nos anos lectivos 2013-2014 ou 2014-2015.

Os objectivos do estudo passaram por identificar conjuntos de práticas e de consumos mediáticos e digitais, perceber atitudes face aos novos media e identificar situações de risco e vulnerabilidades no mundo digital.

No total, foram validados 1814 questionários. Dos inquiridos, 14,3% encontravam-se a frequentar o ensino básico, 43,8% o ensino secundário e 41,9% o ensino profissional. A média de idades é de 16 anos e cerca de 90% são menores de idade – têm menos de 18 anos. A maioria dos alunos a frequentar os ensinos Básico e Secundário são do sexo feminino; no Ensino Profissional dominam os rapazes (59,5%). Coimbra, Viseu e Lisboa são os distritos mais representados neste estudo.

Práticas digitais e frequências de utilização

Quase 90% dos jovens inquiridos dizem navegar na internet todos os dias e a média de utilização aponta para os 253 minutos/dia. Em detalhe, cerca de 40% dos alunos afirmam navegar até 2 horas por dia, mas há quase 10% que assumem navegar diariamente mais de 8 horas: nesta situação, há mais rapazes, inquiridos mais velhos e mais alunos do Ensino Profissional; nesta situação, estão cerca de 22% dos alunos inquiridos no distrito de Santarém e de Faro. O dado pode sugerir dependência ou tendência para uma utilização abusiva da internet. Na verdade, já os estudos “24 hours without media” e “The world unplugged”– também com amostras compostas por alunos (ainda que universitários) – haviam sugerido alguma incapacidade de se viver sem os media, nem que fosse por… 24 horas.

Cerca de 92% destes alunos afirmam fazer o acesso à internet com um computador portátil: em rigor, sublinhe-se que outros projectos de investigação, como o EU Kids Online, já haviam afirmado os jovens portugueses como líderes europeus no acesso à internet com portáteis.

Ainda no acesso à internet, o segundo equipamento mais vezes utilizado é o telemóvel (por cerca de 80% dos inquiridos) e, em terceiro lugar, o tablet (reunindo 38% das preferências). Um dado interessante: o tablet é um equipamento mais utilizado por alunos mais novos, a frequentarem o Ensino Básico. Um sinal dos tempos, geracional, uma progressiva substituição do laptop pelo tablet?

As actividades preferidas destes jovens são ouvir música online (59,7% da amostra), ver filmes/séries/vídeos online (56%) e participar em redes sociais (51,6%) – todas actividades na área do entretenimento. No extremo oposto, nas menos preferidas, todas as actividades que requerem alguma proactividade na produção e gestão de conteúdos: manter uma página online (reunindo apenas 2,6% das preferências), manter um blogue (3,9%), fazer upload de vídeos (4,7%), editar conteúdos multimédia (5,2%), partilhar com hastags (6%) ou fazer upload de música na internet (6,4%).

É realmente surpreendente o que estes inquiridos dizem nunca fazer, como manter um blogue (64,7%), manter uma página web (60,7%), editar conteúdos multimédia (42,2%) ou partilhar/publicar conteúdos com hastags (35,7%). Os números levantam uma série de questões relacionadas com a tão proclamada – e retórica – proactividade dos denominados “nativos digitais” (Prensky, 2001), subjacente ao paradigma digital. Se é certo que o acesso à tecnologia é uma espécie de grau zero para se ser utilizador, também o é que a posse de equipamentos tecnológicos não deriva necessariamente na posse de competências de literacia mediática e digital, nomeadamente em questões de produção e gestão de conteúdos. Vários estudos têm chamado a atenção para este facto: na verdade, apenas uma minoria de indivíduos gera e gere os seus próprios conteúdos digitais, muitos mais são os que apenas partilham conteúdos de que gostam.

Numa frequência diária, estes jovens participam em redes sociais (64,3%) – sendo que a rede social de eleição é o Facebook (reúne 85,6% das preferências), seguido, a longa distância, pelo Twitter (30,7%) e pelo Instagram (25,6%) – ouvem música online (60,5%) e jogam online (30,4%).

Há mais raparigas e mais inquiridos a frequentarem o Ensino Secundário a participarem diariamente nas redes sociais. No distrito de Beja, 78,8% dos alunos estão nas redes sociais todos os dias.

Em todos os distritos de Portugal Continental, as frequências de utilização diária de internet situam-se acima dos 70%. Há mesmo 11 distritos no país com valores percentuais de acesso acima dos 90%.

A procura de notícias (ou a falta dela)

Procurar notícias online todos os dias é uma prática ainda minoritária: diariamente, 23% dos inquiridos afirmam fazê-lo. No entanto, se acrescentarmos a este valor a procura de notícias online pelo menos uma vez por semana, a percentagem sobe para os 51,9%. Como seria expectável, tendencialmente a procura de notícias aumenta à medida que aumenta a escolaridade. São muitos mais os inquiridos do sexo masculino a procurar diariamente este tipo de informação (71,5% de rapazes para 28,5% de raparigas). Os distritos de Leiria e Portalegre lideram na procura diária de informação de actualidade.

A “procura de informação em sites diferentes” e a “comparação de informação em sites diferentes” são práticas pouco expressivas nesta amostra: só 14,3% dos alunos afirmam procurar, todos os dias, informação em sítios diferentes e apenas 9,1% assumem que a comparam. Também estas são práticas mais identificadas por rapazes e actividades que, tendencialmente, aumentam à medida que o nível de escolaridade aumenta. Santarém é o distrito onde estas duas práticas são mais vezes (auto)declaradas.

A procura de informação é feita, essencialmente, no Google. Quase metade destes jovens indica o mais famoso (e mais visitado) motor de busca do mundo como “o site em que procura informação”: é caso para dizer “in Google we trust!” (numa clara alusão ao estudo homónimo realizado nos Estados Unidos). Em segundo lugar, vem a Wikipédia (reunindo 21,6% das preferências) e, em terceiro, as redes sociais (3,4%).

Registe-se que os sites generalistas de notícias foram identificados por apenas 2,1% da população inquirida neste estudo.

Imagem: Freedigitalphotos.net

*Com Célia Quintas, Inês Amaral e Bruno Reis (investigadores), João Honrado e João Serralha (assistentes de investigação)

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