Politico Europa – Existe uma esfera pública europeia?

Maio 6, 2015 • Jornalismo, Média e política, Negócio, Últimas • by

Politico Europa – o novo site sedeado em Bruxelas que cobre a política europeia – está a fazer um importante trabalho pioneiro ao estabelecer a noção de sequer haver algo como “uma esfera pública europeia”.

Para os editores europeus, este não é um espaço onde necessariamente se tem de ser ou se quer ser o percussor. Parece ser vantajoso deixar que o Politico – apoiado pelo muito conservador do ponto de político, mas muito agressivo do ponto de vista empresarial, gigante editor alemão Axel- Springer – faça algum do trabalho mais duro de, não apenas ter de introduzir a sua marca, mas com ela – e mais importante – estabelecer a ideia da existência de uma camada entre o jornalismo doméstico e o internacional.

No mundo velho, basicamente podia escolher-se entre editores regionais e nacionais que se dirigiam a públicos internos e alguns globalistas que “fazem a cobertura do mundo para aqueles que o governam”, como disse uma vez o meu amigo Dan Gillmor, para descrever o Economist, o Financial Times ou o Wall Street Journal.

Até agora, apenas alguns editores, todos com recursos muito limitados como a Euronews, a Presseurop, a European Voice e a Euractiv, só para mencionar os principais, se atreveram a dirigir-se a nós como leitores que não têm apenas identidades regionais, nacionais ou «globais», mas também identidades europeias. Essas entidades europeias normalmente existem em paralelo e não em oposição ao nosso sentido de pertença nacional ou regional
Os editores europeus ainda têm algumas vantagens estruturais (o tamanho do staff, o reconhecimento da marca, etc.) se quiserem entrar nesse espaço Europeu. Os seus maiores obstáculos são, no entanto, de natureza cultural.

É muito provável que os jornais «nacionais», especialmente os jornais mais reconhecidos, estejam culturalmente investidos da ideia de Estado-Nação, uma vez que ela sublinha a sua própria importância e o valor do acesso à política que têm nas capitais dos seus respetivos países.

Até agora a maior parte dos projetos transnacionais de jornais Europeus consistiu sobretudo na tradução das suas coberturas de forma a servir da melhor forma a sua audiência nacional. A maravilhosa aliança europeia entre o Le Monde, The Guardian, Sueddeustsche Zeitung, a Gazeta Wiborcza e La Stampa representou um passo em frente e cria regularmente projetos conjuntos que se podem encontrar aqui.

Apesar do grande valor do projeto não é aquilo que o Politico se propõe fazer, que é escrever e editar, desde o seu início, apenas para leitores transnacionais ou até mesmo pan-Europeus. LENA, a nova parceria de vários jornais liderada pelo ex-editor do El Pais Javier Moreno, pode ir um passo mais adiante.

Entretanto, o Politico Europa é uma das mais interessantes experiências jornalísticas em muitos anos, e uma que pode resultar a favor dos editores nacionais europeus. Muitas destas organizações também se deram conta da «oportunidade europeia», mas não conseguiram defendê-la junto das suas administrações ou empresas-mãe antes da chegada do Politico.

O habitual – e plausível – argumento contra o lançamento de publicações pan-Europeias até agora tem sido que ainda não há um mercado de publicidade pan-Europeu e que os paywalls são um modelo terrível para construir uma audiência do zero, principalmente fora dos mercados nacionais.

O Politico, com o seu mix de receitas vindas de anúncios, newsletters pagas pela indústria, anúncios impressos e eventos pagos pode ajudar a quebrar o velho dilema do «ovo ou a galinha» que tem impedido os editores nacionais de se aventurarem neste espaço promissor.
O que acham?

Vejam também a minha apresentação em Perugia no ano passado: “Still no pan-European media. Are we crazy?” (Ainda sem media pan-Europeus. Estamos loucos?)

E o meu texto sobre a necessidade de media pan-Europeus, no DER STANDARD, da Áustria (texto em alemão).

Créditos da foto: Politico.eu

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