Migrante ou refugiado: a diferença que uma palavra pode fazer

Abril 26, 2016 • Jornalismo, Últimas • by

Ibrahim fala português com sotaque brasileiro quase perfeito. Aos olhos de alguns, nem pareceria um refugiado que saiu de Damasco, capital da Síria, para o Rio de Janeiro. Escapou da guerra junto com a família, há dois anos, em busca de uma vida melhor. Já no Brasil, conseguiu o Registro Nacional de Estrangeiro e mostrou com bastante orgulho o cartão que o comprova.

Ibrahim é um dos muitos que faz parte da chamada “crise migratória”, que ganhou força na agenda jornalística, depois de instalar o caos humano e político na Europa. Duas palavras são as mais ouvidas e lidas na cobertura mediática deste fenómeno: refugiados e migrantes. Qual a diferença entre as duas? E o que o uso de uma ou de outra pode provocar na opinião pública? Foram estes os pontos de partida para mais uma sessão do Dialogue Café, associação que promove videoconferências mundiais, abertas à sociedade civil, para debater questões que estão na ordem do dia. Desta vez, o Dialogue Café ligou Portugal e Brasil.

Na mesa de Lisboa, Cristina Santinho, antropóloga do Centro em Rede de Investigação em Antropologia do ISCTE, Cláudia Pedrosa e Inês Carreirinho, juristas do Conselho Português para os Refugiados, Dalia Sendra, coordenadora do Dialogue Cafe e Ana Pinto Martinho, editora do European Journalism Observatory e membro do Centro de Investigação e Estudos em Sociologia do ISCTE, que moderou a sessão. Ibrahim estava do outro lado da tela, no Rio de Janeiro, acompanhado de Rebeca Dourado, jornalista e Bárbara Caldas, escritora e Ana Julia Pansani, coordenadora do Dialogue Café brasileiro.

Refugiados, por definição, são aqueles que buscam asilo noutro país por serem perseguidos dentro do seu, com desrespeito aos direitos humanos, ou por enfrentarem cenários de violência extrema. Caso da guerra na Síria. A antropóloga Cristina Santinho reforçou que “refugiados têm direito a serem protegidos e, principalmente, direito à dignidade”.

Um migrante é aquele que deixa o país onde nasceu por diversos motivos, como dificuldades económicas, para viver num outro onde terá melhores condições de vida. Como explicou Inês Carreirinho, “as respostas normativas e institucionais são diferentes para quem chega a um país por imigração económica ou por pedido de asilo. Há falta de distinção, na prática, do que significa cada conceito”. Para a jurista, estas “falhas terminológicas interferem na opinião pública”.

O debate pôs em cima da mesa a fragilidade de alguns aspetos da cobertura jornalística sobre a crise migratória na Europa. Para Ana Pinto Martinho, atualmente, a falta de meios dos jornais para ir aos sítios resulta em informações enviesadas. “Um dos problemas do jornalismo é olhar só para um facto e não analisar o que mais está a acontecer”, explicou a mediadora. Inês Carreirinho salienta que existe uma “cobertura deficiente das crises internacionais e ninguém compreende porque os movimentos acontecem”.

Consenso nas mesas foi o de que as crises não são novas. Nova é a exposição mediática a que chegou esta mais recente. A falta de apuração suficiente para entender os contextos gera a confusão no emprego dos termos, que acabam por ser usados, muitas vezes de forma errónea, como já são no senso comum de cada país.

Para as juristas do CPR, entre a dificuldade em gerar consensos dos conceitos na cobertura jornalística, a questão parte para tentar compreender a temática e evitar a propagação de ideias preconcebidas.

Créditos da foto: João Pardal
Caroline Ribeiro e João Pardal
Pós Graduação em Jornalismo – ISCTE

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