Jornalismo Inteligente: Inteligência artificial nas Redações

Junho 16, 2017 • Jornalismo, Últimas • by

Outrora considerada “ficção científica, a inteligência artificial é cada vez mais mais utilizada nas redações.

Imagine que é um jornalista em 2027. Entra no seu automóvel inteligente e, enquanto o seu assistente pessoal virtual lhe lê os cabeçalhos das notícias, os sensores do seu automóvel detectam uma deterioração na qualidade do ar. Uma rápida análise estatística pré-determina que é algo pouco usual e significativo. Inicia o seu programa de navegação nas redes sociais virtuais e apercebe-se que, num determinado bairro, os pais discutem as questões respiratórias dos seus filhos.

Faz o download de imagens conseguidas através de câmaras robóticas daquela área, enquanto procura os registos públicos utilizando uma ferramenta de análise de texto automatizada. Envia então os seus drones dotados de câmaras e escuta os resultados obtidos pela análise virtual, através dos seus auriculares. Quando entrevista fontes oficiais, a análise tecnológica da sua voz indica a presença de sentimentos e detecta um tom “de tentativa” ou “nervoso”. Após terminar os seus relatórios, dita a história a uma app que corrige e formata a escrita.

É então que constata que o jornalismo automatizado está presente em todo o lado.

Este exemplo baseia-se nas intuições presentes num novo relatório da Associated Press, intitulado The Future of Augmented Journalism: A Guide for Newsrooms in the Age of Smart Machines. A agência noticiosa está na linha da frente no que toca ao desenvolvimento de ferramentas alimentadas pela Inteligência Artificial (IA), para ajudar os jornalistas a fazerem o seu trabalho.

“Há três ou quatro anos atrás, se tivéssemos levantado a questão da inteligência artificial nas Redações, provavelmente a maioria de nós teria entrado no departamento de carros voadores e prosseguido com o nosso dia”, disse Dwayne Desaulniers, da AP, durante um recente Seminário web para gerentes e editores de salas de redação dos EUA. “Mas hoje isso seria realmente um erro”.

As Redações estão a experimentar o jornalismo automatizado

As redações já se encontram a experimentar massivamente estas novas tecnologias. O Washington Post utilizou a sua ferramenta de escrita automática Heliograf para cobrir a corrida eleitoral em Novembro. Durante a campanha presidencial, o The New York Times introduziu um newsbot no Facebook messenger. A crescente popularidade dos assistentes virtuais, como o Echo (Amazon) e o Google Home, desencadeou a experimentação de interfaces de áudio em numerosas organizações de notícias, como a AP, o Wall Street Journal, a NPR, a BBC, o The Economist e a Hearst. A Quartz recebeu uma doação de £ 193,000 da Knight Foundation para criar um Bot Studio.

Claramente, o sector de notícias tem-se voltado para a ideia de que as grandes áreas de produção de notícias podem ser melhoradas através da inteligência artificial. Os editores costumavam ser “hesitantes quando se trata da criação de conteúdos mediante inteligência artificial”, afirmou numa entrevista Zohar Dayan, co-fundador da plataforma de vídeo alimentado por IA, Wibbitz. “Vimos uma enorme mudança, uma evolução no mercado com muito maior aceitação para a IA como uma ferramenta de recomendação, AI que escreve artigos a partir de dados, infografias geradas automaticamente usando feeds de dados e, no nosso caso, conteúdos de vídeo automaticamente produzidos”.

Cinco formas através das quais a inteligência artificial poderia beneficiar o jornalismo

O relatório AP identificou cinco áreas de subdomínios da IA relevantes para o Jornalismo: aprendizagem para a utilização de engenhos, linguagem natural (processamento e criação), discurso (de texto escrito para discurso falado e de discurso falado para texto escrito), visão (reconhecimento de imagem e visão computorizada) e robótica.

Se utilizados em conjunto, “a IA pode permitir que os jornalistas analisem dados; identifiquem padrões, tendências e visões através múltiplas fontes; vejam coisas que não se vêem a olho nu; transformem dados e palavras em texto; transformem texto em áudio e vídeo; compreendam sentimentos; analisem cenas para objetos, rostos, texto ou cor – e muito mais. ”

Os proponentes da IA nas redações dos Media muitas vezes enfatizam os benefícios da IA: libertam os jornalistas das tarefas mundanas e aumenta as capacidades dos repórteres para darem sentido a número crescente de dados.

Contudo, a IA também levanta uma série de questões. Compreender e controlar sistemas automatizados é um novo território para as organizações noticiosas. Tal poderá levar a disrupções do fluxo de trabalho e um crescente fosso no cnjunto de capacidades necessárias, tal como o relatório da AP também salienta. Para além disso, o jornalismo automatizado depende de “dados limpos, precisos e estruturados”.

Da “ficção científica” ao “maravilhoso renascimento”

À luz desses rápidos desenvolvimentos, Bill Keller, ex-editor executivo do New York Times, defende um “ceticismo saudável” sobre o jornalismo de dados. “Sou completamente a favor dos dados”, disse, “mas não devemos ser escravos deles”.

O jornalismo é apenas um campo onde a IA se expande. Tal como Jeff Bezos, CEO da Amazon e proprietário do Washington Post, afirmou recentemente na conferência da Internet Association, “Estamos agora a resolver problemas de aprendizagem informática e de inteligência artificial que foram … do domínio da ficção científica nas últimas décadas. E a compreensão da linguagem natural, dos problemas de visão eletrónica, é realmente um maravilhoso renascimento”.

Para os diretores de redação, essa expansão da IA também oferece oportunidades e desafios. “Os líderes de informação podem forjar parcerias estratégicas no ecossistema da IA que não são apenas sobre a partilha de conteúdos”, escreveu Amy Webb no Nieman Reports. “Eles podem oferecer aos seus funcionários tempo e recursos para experimentar. Eles podem inserir-se no diálogo público. Em suma, eles podem optar por participar do próximo evento, em vez de serem consumidos por ele “.

Este artigo é o primeiro de uma série de três, considerando desenvolvimentos em inteligência artificial no jornalismo.

Créditos de Imagem: A Health Blog: Flickr, licença CC

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