Será a imparcialidade relevante na Era da Internet?

Novembro 10, 2014 • Ética e Deontologia • by

As organizações mediáticas tradicionais devem adaptar-se à era da Internet ou arriscar-se-ão a perder as suas audiências mais jovens. Precisão e imparcialidade continuam a ser relevantes, mas os Media Tradicionais devem aprender a adaptar-se ao tom e ao ethos da Web, através da introdução de uma maior transparência e tornando-se mais interativos e abertos.

O panorama mediático alterou-se dramaticamente na Era Digital, com a mudança constante de modelos de negócio e o nascer de novas plataformas jornalísticas a cada dia. A Era Digital transformou o núcleo daquilo que os jornalistas fazem e as organizações mediáticas, novas ou antigas, têm sido forçadas a adaptar os seus padrões editoriais.

Num artigo científico preparado para o Reuters Institute for the Study of Journalism coloquei duas questões-chave: Quais os padrões jornalísticos que ainda se encaixam nesta nova era? E quais os padrões que formam a base de um novo tipo de jornalismo, explorado por websites de notícias híbridos, nascidos com a Era Digital?

O meu artigo, intitulado “Accuracy, Independence, and Impartiality: How legacy media and digital natives approach standards in the digital age”, baseia-se em três media tradicionais (The Guardian, New York Times e BBC) e em três publicações online (Quartz, BuzzFeed e Vice News). O Nieman Lab tem um bom resumo de como estas organizações estão a adaptar os seus padrões.

Em geral, as perspectivas são promissoras. A chegada de uma Internet hiper-conectada forneceu aos seus públicos um maior acesso a uma variedade de factos, dados e opiniões. Nativos digitais como o ProPublica, FiveThirtyEight, e Vox revelaram os seus trabalhos para criar confiança. O website de negócios Quartz (propriedade do The Atlantic) detém um sistema inovador de anotações, onde o público pode apresentar os seus próprios fatos ou perspectivas sobre uma história, enquanto o Grantland, um website de desporto e cultura, demonstra como uma publicação mediática pode apresentar correções, fornecendo aos leitores uma maior contextualização.

Os pontos fortes editoriais que a Era Digital oferece incluem:

• A utilização de hiperligações, de modo a oferecer precisão e abertura;

• Uma maior contextualização e oportunidade para correções on-line;

• A inclusão de um maior número de vozes, o que acrescenta pluralidade;

• Transparência, para além de (e não em substituição) da imparcialidade;

No entanto, também existem alguns riscos provocados pela internet para os padrões jornalísticos:

• A velocidade e a viralidade podem ameaçar a imparcialidade e a precisão;

• A ausência de uma estrutura linear significa que todo o conteúdo é “comprimido”. A distinção entre tipos de conteúdo torna-se difícil para os meios comprometidos com a imparcialidade;

• A publicidade nativa e o aumento do jornalismo direccionado pelas Relações Públicas pode impedir o público de fazer escolhas informadas relativamente ao que é fiável e porque razão o é.

Entre minhas conclusões consta a observação de que está a emergir uma terceira forma de jornalismo; uma forma que combina o melhor dos padrões tradicioanis e as novas abordagens dos nativos digitais. Esta é uma tendência já apontada de modo mais amplo por Emily Sino of Tow (Universidade de Columbia) e pelo colunista do The Guardian, Frederic Filloux. Não obstante, o mesmo parece aplicar-se quanto à forma como as organizações nascidas através da Internet estão a reinventar padrões para o Séc. XXI.

Os nativos digitais, tais como o Quartz, Vox e ProPublica, encontram-se a forjar um novo tipo de jornalismo que combina a integridade editorial com um tom e uma apresentação que são mais típicas da Web. É cada vez mais importante para as organizações tradicionais refinar os seus padrões, de modo a adaptarem-se à era digital. Sem adaptação, arriscam-se a perder as audiências mais jovens para o vasto leque de outras opções on-line.

Para construir a confiança e a integridade jornalística na Era Digital, os Meios de omunicação devem dar prioridade: a uma maior transparência; a formas de jornalismo mais abertas (open source, open code, open data); e a uma voz que é a da Internet, em grande parte mais impulsionada por jornalistas individuais do que por instituições noticiosas.

A análise deve ser mais baseada em factos do que em opiniões e deve existir uma maior amplitude de ideias e perspectivas.
A era da Internet também exige um conteúdo que seja altamente partilhado por via das plataformas sociais, embora sempre preciso; uma interação que coloque o leitor enquanto perito; e uma melhor contextualização.

As instituições de informação devem agora adaptar os seus padrões para encarar esta era híbrida de uma forma que reforce o compromisso com um jornalismo preciso e robusto, mas que também adopte o tom e o ethos da Internet.

Créditos da foto: Free Press / Flickr Cc

Traduzido do original em  Inglês, disponível também em Albanês e Italiano

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