47% dos jovens portugueses sabem de ciberbullying

Março 16, 2015 • Investigação, Literacia dos Média • by

Ciberbullying, encontros pessoais com desconhecidos que conheceram online, roubo de perfis e de dados nas redes sociais são as situações mais vezes identificadas (porque conhecidas, de facto) por jovens alunos dos ensinos Básico, Secundário e Profissional. Esta é a segunda parte de um retrato da juventude portuguesa (a primeira parte foi publicada, na semana passada, no EJO), das suas práticas em redes sociais, dos seus riscos e vulnerabilidades.

Mais de 1800 jovens foram inquiridos, em 2014 e em 2015, no âmbito do projecto de investigação “Direitos digitais: Uma password para o futuro” (DECO/Universidade Autónoma de Lisboa). Em comum, tinham o facto de serem alunos a frequentar escolas nos 18 distritos de Portugal Continental. O trabalho de investigação pretendia identificar práticas e consumos mediáticos e digitais, perceber atitudes face aos novos media e identificar situações de risco e vulnerabilidades no mundo digital. E a verdade é que os resultados foram surpreendentes.

Numa amostra onde a média de idades ronda os 16 anos – e em que falamos, em cerca de 90% dos casos, de alunos menores – é importante reter alguns indicadores: estes jovens disponibilizam online, nas redes sociais, demasiadas informações sobre si próprios e sobre as suas vidas; mais de metade não tem muito cuidado com as definições de privacidade dos seus perfis; quase metade tem familiares, amigos ou colegas que já foram vítimas de ciberbullying, que já se encontraram pessoalmente com desconhecidos, a quem já roubaram os perfis nas redes sociais.

Redes sociais, um sinónimo de Facebook

A maioria dos jovens (64,3%) participa nas redes sociais todos os dias, ou melhor, navega no Facebook. De facto, a rede social mais popular do Mundo, criada por Mark Zuckerberg nos primeiros anos do século XXI, é a rede social mais vezes identificada pelos inquiridos: 85,6% dos alunos com conta numa rede social têm conta no Facebook (contra 30,7% com conta no Twitter ou 25,6% no Instagram) – aliás, tal como a maioria dos portugueses com conta numa rede social, um facto já sublinhado, pelo Observatório da Comunicação, em “A Internet em Portugal”. Num retrato mais fino, pode dizer-se que há mais raparigas e mais alunos do Secundário a participarem nas redes sociais todos os dias.

A maioria (69,3%) diz ter apenas um perfil activo e ter menos de 1.000 amigos ou seguidores (70,6%). E muito embora 40,2% afirmem o seu perfil como “privado” (só partilhado com amigos), ainda há 25% de inquiridos que assumem o seu perfil como “público” e 29,9% como “parcialmente privado”. O problema dos riscos e vulnerabilidades pode, de facto, começar aqui.

Informações: muitas e potencialmente nocivas

Que informações disponibilizam estes jovens nas redes sociais? Muitas – demasiadas – e diversificadas: fotografias de si próprios (81,3%), o nome verdadeiro (76%), o apelido (61,5%), as suas preferências (56,3%), fotografias de amigos (55,9%), a idade verdadeira (52,3%), o nome da escola (51,6%). Há, até, um pequeno grupo de jovens que revela… o número de telemóvel (6%) e a morada de casa (5,4%).

Estes dados parecem reflectir um problema de base no mundo digital: a falta de educação para os novos media. Em rigor, a revolução digital ocorreu, na maior parte dos países, suportada na posse de equipamentos tecnológicos (no acesso, o ponto zero da utilização) e muito pouco na posse de competências-chave de literacia mediática e digital – e na promoção de programas de educação para os media que as visem e promovam. Portugal não foi excepção (recorde-se os programas “e-escolas”, “e-escolinhas” e o computador Magalhães).
Estes dados parecem reflectir também alguma desresponsabilização parental: porque os familiares não sabem como fazer (não têm conhecimentos ou competências) ou não têm noção dos riscos que estes alunos correm com a disponibilização online de tanta informação sobre si próprios, as suas famílias, as suas rotinas, enfim, as suas vidas.

Num retrato mais fino, sublinhe-se que quase 30% dos alunos que frequentam o Ensino Básico dizem a idade verdadeira, que quase 30% dos alunos até aos 14 anos o fazem, percentagem que sobe para os 55% nos 15-18 anos. Mais de 10% dos alunos de Viseu, Beja e Santarém assumem que revelam a morada de casa.

Riscos e vulnerabilidades no mundo digital

O ciberbullying – humilhações, ameaças, chantagem e/ou difamação, através de sms, comentários, fotografias, vídeos, etc – é a prática (violenta) mais vezes identificada por estes alunos: 47,6% dos inquiridos afirmam conhecer casos de ciberbullying.
A percentagem desce quando questionados acerca do conhecimento de “roubo de perfis nas redes sociais” (44,5%), de “encontros pessoais com alguém que conheceram na internet” (44,4%), de “roubo de dados nas redes sociais” (38,9%), de “envio de imagens ou conteúdos eróticos ou pornográficos” (38,4%), de “envio de imagens ou conteúdos violentos” (25,6%) ou de “chantagem com amigos nas redes sociais” (22,9%).

Neste estudo, encontraram-se diferenças contrastantes entre o que estes jovens dizem conhecer e as situações em que, de facto, se constituíram como vítimas: por vergonha ou por pudor, por medo de serem identificados ou novamente perseguidos, os alunos que se assumem vítimas de ciberbullying somam 14,7% da amostra – um dado ligeiramente superior ao revelado, em 2014, pelo EU Kids Online – Portugal (12%).

O encontro pessoal com desconhecidos (27,6%), a exposição, sem querer, a conteúdos eróticos ou pornográficos (27%), o convite para conversar em privado nas redes sociais ou num chat (26,9%) e a exposição, sem querer, a conteúdos violentos (23,8%) são as situações de risco mais vezes identificadas por esta amostra.

Há mais raparigas e mais alunos dos ensinos Secundário e Profissional a conhecerem casos de ciberbullying. Mais de 32% dos alunos até aos 14 anos dizem conhecer alguém que já passou por esta prática violenta, percentagem que sobe para os 49% na faixa etária 15-18 anos.
Quanto a vítimas, há registo de mais casos no género feminino e nos ensinos Secundário e Profissional. Os distritos onde se identificaram mais episódios de ciberbullying foram Lisboa, Coimbra, Viseu e Santarém (todos acima dos 20 casos). Cerca de 11% dos alunos até aos 14 anos assumiram que já foram vítimas, cerca de 15% dos inquiridos entre os 15-18 anos também o declararam, mas é na faixa etária 19-22 que se registam mais casos: 21% dos alunos confessaram que já viveram esta situação.

O número de alunos de distritos alentejanos que sabem do roubo de perfis nas redes sociais é particularmente expressivo: 63,6% dos alunos de Évora declaram conhecer casos, assim como 63,5% dos inquiridos em Beja e 56,1% em Portalegre. São quase 46% os alunos entre os 15 e os 18 anos que conhecem vítimas desta prática, percentagem que desce para os quase 35% em inquiridos com idades até 14 anos.

Os encontros pessoais com desconhecidos ocorrem mais em Lisboa e Coimbra, registando-se mais casos com rapazes e nos ensinos Secundário e Profissional. No entanto, 12,4% dos alunos do Ensino Básico dizem que já correram esse risco, assim como 12,1% dos alunos até aos 14 anos e 28,8% dos estudantes entre os 15 e os 18 anos.

Quanto à exposição, não intencional, a conteúdos violentos e a conteúdos eróticos e/ou pornográficos nota-se uma ligeira dominância masculina, de alunos na faixa etária 19-22 anos e de inquiridos a frequentarem o Ensino Secundário.

Os distritos de Portugal Continental onde os alunos mais vezes declararam ter recebido conteúdos violentos são Évora, Leiria, Santarém e Portalegre. Quando a conteúdos eróticos à exposição, não intencional, a conteúdos violentos e a conteúdos eróticos e/ou
e/ou pornográficos, os distritos líderes são Leiria, Setúbal, Beja, Santarém e Portalegre.

Afinal, há assimetrias regionais que são também digitais e que vão muito para além da posse de equipamentos, do acesso e da frequência de navegação…

*Com Célia Quintas, Inês Amaral e Bruno Reis (investigadores), João Honrado e João Serralha (assistentes de investigação)

Imagem: Freedigitalfotos

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